Um Casamento na Sede do iBOPE

Após anos de dedicação ao instituto Brasileiro de Operações e Pesquisas Especiais e depois de um ato de indisciplina aos seus superiores, Capitão Pacífico, como medida punitiva sócio-educativa, viu-se obrigado a realizar uma cerimônia gratuita de casamento de pessoas pobres na sede do iBOPE.

– Capitão…
– Sim, 02.
– As nossas fardas pretas não são inapropriadas para um casamento?
– Ao contrário, Tenente. A cor do luto é a ideal para celebrar um matrimônio. E o noivo?
– Está sendo preparado na sala para assuntos da Corregedoria.
– Ele não se corrigiu ainda? Vai cometer o ato do casamento? Apesar de ter de realizar a cerimônia para cumprir a minha obrigação jurídica, não desejo um casamento ao meu pior inimigo. Foi por esta razão que pedi para quê, antes da cerimônia, ele fosse delicadamente averiguado na nossa sala para assuntos da Corregedoria. Ele ainda está resistindo?
– Aparentemente, ele é apaixonado pela noiva, Capitão.
– 02, pobre não se apaixona, apega-se. E pobre não se casa, ajunta-se. Peça para o trazerem.
– Dizer isto sobre o amor e o casamento dos pobres não seria preconceito?
– A frase não é minha. É da classe média brasileira. Se a sua equipe não conseguiu, vou convencê-lo a pedir para sair desta enrascada antes que seja tarde demais para ele.

Para alívio dos convidados e da noiva, o noivo apareceu no salão principal do instituto devidamente escoltado por um dos comandados do oficial militar encarregado de fazer a cerimônia.

– Pigmeu! Traga a vítima, quero dizer o noivo! – bradou o Capitão Pacífico.

Num modelo super fashion, um paletó branco salpicado de vermelho-hemorragia, e maquiado com um tom roxo-hematoma, o noivo foi levado por Pigmeu, um sargento de 2,15 metros de ironia, ao altar improvisado.

– Sejamos breve – disse o Capitão aos noivos.

Agarrando o noivo pelo paletó, Pacífico o questionou:

– O senhor tem certeza de que irá ficar ao lado de uma única mulher, durante toda a sua vida, na alegria e na tristeza?!
– O senhor tem certeza de que irá ficar ao lado de uma única mulher, durante toda a sua vida, na saúde e na doença?!
– O senhor tem certeza de que irá ficar ao lado de uma única mulher, durante toda a sua vida, na riqueza e na pobreza?!

O noivo, antes que o Capitão lhe pedisse para sair, cuspiu três dentes, um para cada tapa após cada pergunta, e balançou a cabeça negativamente. O oficial não recebeu o gesto com surpresa, percebendo tratar-se de um espasmo num pescoço quebrado. Largou o noivo e se dirigiu à noiva inconsolada.

– Não, Capitão!… – gritou Pigmeu. – Ela é uma mulher!…
– Acalme-se, Sargento. Não irei machucá-la.
– E o quê, então, o senhor irá fazer?
– Irei levá-la daqui para um convento, onde ela se casará com a religião para evitar que ela não tente outro casamento. Pobre, depois que se casa, não tem filhos, tem ninhada, assim resolvo dois problemas de uma vez só: cumpro a minha punição sócio-educativa e contribuo para a diminuição da violência urbana utilizando uma nova estratégia, pois, ao evitarmos o casamento de pobres, evitamos ter de matar uma quadrilha no futuro.
– Este é o desejo da classe média brasileira – disse o Tenente 02. E o Capitão retrucou:
– Não. Este é o desejo de uma classe mais complicada que a nossa classe média e mais cruel que nós mesmos.
– A classe alta? – perguntou o Sargento Pigmeu. E o Capitão respondeu:
– A classe dos nossos patrões, a classe política brasileira.

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