Do Respeito

Dizer a respeito sobre o próprio respeito e seus pares em carne, almados ou não? Dizer a respeito ou a sua falta, a si mesmo, ao próximo ou ao distante? A si mesmo basta a autopiedade, misericórdia mendicante, egoísmo ou simplesmente se dar, se dar ao respeito. Ao próximo satisfaz a condolência, pêsames esmolares, eutruísmo ou simplesmente dar, dar o respeito. Ao distante chega a compaixão, pena gratuita, qualquerismo ou ofertar, ofertar o respeito em formas abstratas de orações. Um chamamento distante, um distanciamento crítico, talvez o mais conveniente sinônimo para indiferença, algo com um quê de carinho congelado e, quando em caso de emergência, surpresa indesejada, necessário apenas é o gesto prático de retirá-lo da seção de frios, deixá-lo aos tempos, ambiente e espera e depois elevá-lo ao calor das emoções. Faz-se então a primazia das faces e vozes, caras e bocas para qualquer momento, em qualquer lugar, em qualquer situação. Simples… mente.

Mentir em nome da verdade, o mesmo que falsificar em nome da originalidade. Os maiores sabedores da ignorância invertida dos papéis crivados pelas contradições entre as palavras ditas e as faladas, entre os atos e os desatinos, são justamente aqueles portadores da percepção do avesso do caráter e do inesgotável poder de perdoar a plebe que se faz reino e que os julga, condenando ou absolvendo com vaias ou aplausos. São os artífices das almas, atores no palco, vítimas da arena. Talvez seja por esta razão que o teatro tenha criado a quarta parede, para que as suas criaturas não tenham asco, como não recomenda o fiasco da norma culta da boa educação, como se tal asco fosse uma verborragia contundente a refleti-los. Seriam cortejados quando sob a linha da boca de cena? Improvável. Provável apenas a humanidade. Nada como o humano para demonstrar o quanto desumano o respeito pode se tornar.

E a natureza do ser humano, imperfeita, inventa seu estado ordinário de interesse: artificial. Uma espécie de desvio de ascese, curva sedutora, irresistível, rebeldia contra o insipiente reto ou contra o tortuoso rascunho, esboço em desacordo com os novos velhos traços da moda das aparências. Aliás, aparentemente, parece que quando o respeito cai do salto, em si, sente-se extremamente envergonhado por ver sua audácia abismada. Desilusões de quem não pode caminhar por si próprio na busca por um único ato que seja de verdade pessoal, num único instante que seja, tal e qual ingenuidade infantil, espontânea, uma franqueza impensada, uma travessura de um gosto doce na acidez da inverdade, uma concórdia entre olhares. Um dar e receber a importância das atenções esquecidas, um cuidado às lembranças de uma educação perdida, ao próprio respeito, sentido.

Então, ressentido das travessias equivocadas, atalhos solitários, o respeito se esquece, não refaz a linha de partida nem vislumbra a linha de chegada, todavia não se aparta da vontade de resgatar os seus princípios e entrever os seus fins sem fadar-se ao próprio encerramento, pois bem sabe que não se trata de uma independência. Respeito é um estado sem governo, uma utopia em busca de um destino, uma anarquia arrependida, um poder a querer ser possuído, mas também protagonista, e tão bem se sabe que não se trata de uma qualidade vaidosa e pretensa. Respeito não se trata de uma virtude, trata-se de uma naturalidade tão espontânea quanto a sua falta na vista de quem perde o ponto.

Indiferentes ou afetuosos, olhares, quase sempre esquecidos pelo correr dos dias e noites tocam-se ou se calam, casam-se ou se separam, estupram-se ou se defloram, levantam-se ou se deitam. Outros apenas se ignoram. Mesmo que fechemos os olhos, uma breve ausência de luz não é capaz de esconder as inevitáveis cicatrizes dos olhos, forjadas na lida dos confrontos simples ou vicissitudes despercebidas pelo caos dos sentidos ou aflições das vontades. Cicatrizes tão densas, profundas e longas que nem mesmo uma gota, uma lágrima, desde sua nascente até um poente de chão, daria a magnitude de sua dimensão. Mentira supor que o amparo de um sorriso pudesse maquiar tais cortes, fechados pelos vagarosos passos das horas ou por mãos alheias, jamais esquecidos. E estão lá, onde a vida escolheu estar, sem pedir ou perguntar. São pinturas íntimas a dizer a respeito, em silêncio, grito cego àqueles de ouvido absoluto, sobre o estar de cada ser, não importando ter ou não ter razões, motivos, explicações, justificativas, desculpas, pretextos ou posfácios. Sempre será dito a respeito, não importando a qualidade da presença ou ausência ou se o respeito estará à margem de um beijo… roubado.

Paz e respeitosos abraços, ??? ?????????.

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6 comentários sobre “Do Respeito

    • Mariel, lembro-me de que fiz o texto mais por vaidade que seriedade. Na época, há treze ou quatorze anos, queria impressionar uma ex-namorada minha, porém acho que não enviei a mensagem para ela. Antes de postá-la aqui, fiz apenas pequenas correções sem relembrar muito bem do conteúdo dela e, de tão prolixa e imatura, pensei que ela receberia apenas algumas curtidas por educação, e nenhum comentário. Não imaginei que parágrafos feitos há tanto tempo pudessem ter o privilégio e a honra de entrarem na casa, na família!, de alguém cuja competência literária estimo e admiro. Sinto-me mais que grato pelas suas palavras e atitude. Pela primeira vez, depois de tanto gostar de escrever, e quase desistir da literatura, sinto-me um par, um colega de trabalho seu e de outros bons escritores e extremamente assustado com o peso da responsabilidade do nosso ofício. E estes sentimentos não tem nada a ver com emoções egocêntricas.

      O meu agradecimento se estende aos seus. Paz, boa semana e estupefatos abraços a todos.

      PS: Um dia, espero encontrá-lo pessoalmente para pormos as nossas prosas escritas e faladas em dia.

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