Ordem do Dia (dos Pais)

O descumprimento das ações solicitadas abaixo poderá acarretar severas punições de origens havaianas, então você deve, meu filho…

Ao vir, chorar no meu colo com mais força que a dos meus olhos retendo as minhas lágrimas.

Correr para os meus braços depois que aprender a andar.

Dizer a primeira palavra somente quando eu estiver presente.

Sempre agradecer a Deus pelo dom da vida antes de dormir.

Jamais desobedecer quem deu você à luz.

Não fazer pirraça no primeiro dia de escola.

Mostrar o desenho que você fez de mim para que eu o envie ao Louvre.

Olhar para uma borboleta pousada num pantanal de barros e, como a criança de um poeta, dizer que ela é uma cor que voa.

Ao quebrar algum objeto, não sair do local do crime, pois assim você aprenderá a se responsabilizar pelos seus atos.

Jamais se esquecer de olhar para os dois lados de uma rua antes de atravessá-la.

Avisar-me se chegar em casa de bicicleta sem rodinhas.

Chutar a bola sempre no contrapé do goleiro. Quando for pênalti, bola para um lado, ele para o outro, porque é na tensão que se deve ser frio.

Ao apanhar na escola, lembrar-se de tudo que lhe ensinei sobre a paz e se vingar do seu colega agressor urgente e dolorosamente.

Arrumar-se para subir o morro e aprender o que o asfalto não conta.

Ler a Bíblia e meditar sobre a Palavra de Deus todos os dias.

Fazer das ilustrações de Gustave Doré, na “Divina Comédia”, o seu almanaque somente após decorar o texto do primeiro verso do inferno ao último do paraíso.

Não se esquecer de que nota 10 em literatura e português é pouco. A média da sua casa para tais matérias é 11. Para as outras, é aceitável 9.

Devolver o beijo que você roubou da vizinha.

Pegar o meu barbeador sem que eu saiba.

Experimentar desafiar-me para lhe mostrar o porquê da existência do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Sair de casa com agasalho. Nunca deixar de levar camisinha.

Baile só se for no Theatro Municipal. E se não aprender a ler partitura também em Braille, a sua guitarra será confiscada.

Preparar os nossos mantos sagrados para encontrarmos os nossos compatriotas rubronegros na principal igreja de todo flamenguista, o Maracanã.

Se a sua namorada for a mais devassa das prostitutas, respeitá-la como se ela fosse a mais cândida das santas. Mulher não é objeto, principalmente a morena linda que passa pela nossa rua todos os dias.

Fazer tatuagem após entrar na Brigada Paraquedista. Para brincos e piercings, lembrar-se das brocas da minha furadeira.

Em vez de fazer letras, contrariar-me e fazer economia e as declarações do Imposto de Renda da família todo ano. De graça.

Fazer de “A Arte da Guerra” o seu principal livro de autoajuda.

Entender que quando eu estiver ausente é para que você aprenda a se fazer presente.

Reconhecer que a oração de São Francisco de Assis, ainda que sejamos protestantes, é a realidade da vida.

Saber quê, se cair da moto que você comprou, amarro-o na traseira dela e o reboco para que você aprenda a fazer esqui aquático no asfalto. Descalço.

Permanecer sempre ao lado da sua esposa na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e na alegria e na tristeza.

Quando chegar à nossa casa, logo que se separar da sua esposa, ouvir calado o meu sermão, fazer a as pazes e amor com ela para quê, nove meses depois, você pague por seus pecados.

Comportar-se, diante do seu rebento, da mesma forma que me comportei diante de você.

Não reclamar do começo da calvície e dos primeiros fios brancos hereditários.

Vir para a nossa casa todo domingo, com a sua família, se não quiser parar num hospital ou numa cadeia.

Sentar na varanda comigo, para o café do fim de tarde, e conversarmos sobre política, sociologia, filosofia, literatura, economia e mulheres.

Não brigar com o seu menino, já homem feito, por ele subir nas árvores que você tanto subiu.

Não rir de mim por ter posto as rodinhas da sua primeira bicicleta na minha primeira moto, aliás, Harley-Davidson.

Ir à delegacia para pagar a minha fiança porque a cara de um guarda acertou a minha mão durante um mal-entendido por causa de excesso de velocidade, empolgação e irresponsabilidade.

Convencer-me a entrar, finalmente, num veículo que voa, porém mais pesado que o ar e movido a explosão.

Confessar de qual dos meus livros você gosta mais.

Ir ao médico comigo, ouvi-lo e, como eu, aceitar a gravidade do diagnóstico. Quando vier me visitar e se eu estiver de cama, deixar o choro fora do quarto.

Antes de eu morrer de saudade, pedir para a sua mãe se apaixonar por mim o mais rápido possível para você nascer, ser o meu melhor presente, vivermos mais que o que se pode escrever e chamá-lo de meu filho.

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Casal de Deus

À noite, num quarto de casal, um homem de Deus ora a esposa, e uma mulher de Deus, o marido. Ambos se deitam e, em silêncio, de mãos dadas e olhos fechados, não fazem amor porque preferem sentir o daquEle que os uniu. Elevando pensamentos, os dois agradecem a Ele por sonharem acordados a realidade do matrimônio divinamente abençoado. O casal se cobre e descobre que mais quente que uma peça de jogo de cama é o carinho do abraço que adormece a inquietação e desperta a tranquilidade, pois “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

Nem Lula Nem Coxinha

Segundo o iBOPE, instituto Brasileiro de Operações e Pesquisas Especiais, a sucessão presidencial não seria entre moluscos e salgados. De acordo com a organização, o lobby Global a favor dos tucanos não passa de uma manipulação midiática desesperada para impedir o avanço de Jair Bolsonaro à presidência.

Mesmo após ter dito que a deputada Maria do Rosário não merecia sofrer um impeachment sexual, a imagem do deputado, após milhares de entrevistas e torturas feitas pelo instituto, começa a ganhar uma inesperada simpatia dos rostos cheios de hematomas, cortes e fraturas da população. De acordo com o que é comentado nos bastidores da imprensa, a aflição da família Marinho se deve ao fato de Jair Bolsonaro estar recebendo o apoio de Edir Macedo, portanto da Rede Record, da Igreja Universal e de todos os hospícios nacionais para derrubar a hegemonia da Vênus Platinada. Um dos filhos do Dr. Roberto disse que teria sido menos pior se Silvio Santos apoiasse Tiririca ao Planalto.

Cogitado sobre um convite para fazer par com Bolsonaro, o Capitão Nascimento afirmou que não aceitaria ser vice porque, além de não ser vascaíno, gostaria de ser deputado para ocupar o cargo de presidente da Comissão de Direitos Humanos. “Se o Marco Feliciano pôde, por que eu não poderia?”, indagou o militar quê, para a melhoria da sua figura junto ao eleitorado, receberá o apoio dos seus comandados e do Estado Islâmico à candidatura ao Nobel da Paz.

Nanonsenseconto

O tempo estava choroso, e um mágico tirou um coração artificial enfartando da cartola, pondo-o na calçada. Uma ambulância parou no sinal, e um doutor saiu dela rapidamente. Ele estava usando uma camisa-de-força quando o objeto moribundo disse em volume baixo as últimas palavras. O médico não as ouviu porque, com as mãos atadas, não poderia pegar o estetoscópio dele preso à sirene da viatura hospitalar.

Um Casamento na Sede do iBOPE

Após anos de dedicação ao instituto Brasileiro de Operações e Pesquisas Especiais e depois de um ato de indisciplina aos seus superiores, Capitão Pacífico, como medida punitiva sócio-educativa, viu-se obrigado a realizar uma cerimônia gratuita de casamento de pessoas pobres na sede do iBOPE.

– Capitão…
– Sim, 02.
– As nossas fardas pretas não são inapropriadas para um casamento?
– Ao contrário, Tenente. A cor do luto é a ideal para celebrar um matrimônio. E o noivo?
– Está sendo preparado na sala para assuntos da Corregedoria.
– Ele não se corrigiu ainda? Vai cometer o ato do casamento? Apesar de ter de realizar a cerimônia para cumprir a minha obrigação jurídica, não desejo um casamento ao meu pior inimigo. Foi por esta razão que pedi para quê, antes da cerimônia, ele fosse delicadamente averiguado na nossa sala para assuntos da Corregedoria. Ele ainda está resistindo?
– Aparentemente, ele é apaixonado pela noiva, Capitão.
– 02, pobre não se apaixona, apega-se. E pobre não se casa, ajunta-se. Peça para o trazerem.
– Dizer isto sobre o amor e o casamento dos pobres não seria preconceito?
– A frase não é minha. É da classe média brasileira. Se a sua equipe não conseguiu, vou convencê-lo a pedir para sair desta enrascada antes que seja tarde demais para ele.

Para alívio dos convidados e da noiva, o noivo apareceu no salão principal do instituto devidamente escoltado por um dos comandados do oficial militar encarregado de fazer a cerimônia.

– Pigmeu! Traga a vítima, quero dizer o noivo! – bradou o Capitão Pacífico.

Num modelo super fashion, um paletó branco salpicado de vermelho-hemorragia, e maquiado com um tom roxo-hematoma, o noivo foi levado por Pigmeu, um sargento de 2,15 metros de ironia, ao altar improvisado.

– Sejamos breve – disse o Capitão aos noivos.

Agarrando o noivo pelo paletó, Pacífico o questionou:

– O senhor tem certeza de que irá ficar ao lado de uma única mulher, durante toda a sua vida, na alegria e na tristeza?!
– O senhor tem certeza de que irá ficar ao lado de uma única mulher, durante toda a sua vida, na saúde e na doença?!
– O senhor tem certeza de que irá ficar ao lado de uma única mulher, durante toda a sua vida, na riqueza e na pobreza?!

O noivo, antes que o Capitão lhe pedisse para sair, cuspiu três dentes, um para cada tapa após cada pergunta, e balançou a cabeça negativamente. O oficial não recebeu o gesto com surpresa, percebendo tratar-se de um espasmo num pescoço quebrado. Largou o noivo e se dirigiu à noiva inconsolada.

– Não, Capitão!… – gritou Pigmeu. – Ela é uma mulher!…
– Acalme-se, Sargento. Não irei machucá-la.
– E o quê, então, o senhor irá fazer?
– Irei levá-la daqui para um convento, onde ela se casará com a religião para evitar que ela não tente outro casamento. Pobre, depois que se casa, não tem filhos, tem ninhada, assim resolvo dois problemas de uma vez só: cumpro a minha punição sócio-educativa e contribuo para a diminuição da violência urbana utilizando uma nova estratégia, pois, ao evitarmos o casamento de pobres, evitamos ter de matar uma quadrilha no futuro.
– Este é o desejo da classe média brasileira – disse o Tenente 02. E o Capitão retrucou:
– Não. Este é o desejo de uma classe mais complicada que a nossa classe média e mais cruel que nós mesmos.
– A classe alta? – perguntou o Sargento Pigmeu. E o Capitão respondeu:
– A classe dos nossos patrões, a classe política brasileira.