Dias Estranhos, Noites Esquisitas

Existem dias em que teríamos a noite em nossas mãos para que pudéssemos rasgar as horas, fazer a madrugada ter gosto de quero mais, perguntarmo-nos quando e onde seria o próximo encontro já sentindo falta do último, mas sabe-se lá por que motivo eles se perdem e nos deixam sem a rota de fuga da rotina.

Dias estranhos, noites esquisitas, de presentear nó cego com óculos escuros, jogar inseticida em bicho-grilo, pregar botão de rosa em camisa-de-força. São tão politicamente incorretos que nos fazem traduzir John Donne como João Feito e poderíamos dizer que ninguém é uma ilha, mas às vezes chove.

Às vezes, os dias ficam meio pé-de-vento descalço, brinco de orelha de livro, ferradura de cavalo-marinho, escada em nota de rodapé. São dias incomuns, mais se parecem com noites que viraram do avesso. Dias que fazem a gente escrever que óvulo fecundado é uma história que ainda virá, embora ainda que divino presente, história sem pé nem cabeça.

Há dias em quê, se a noite caiu, mentira, porque nesses dias a noite não cai, tropeça. Se tentar torcê-la, esmagam-se as estrelas cadentes e o remorso só não é maior que o de escrever céu com letra minúscula. Dias e noites que não servem nem para fundo de paisagem de quadro surrealista. A tela não deixa, faz tanta chantagem que convence a aquarela a beber aguarrás.

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