Templo é Dinheiro

Dizemos que ganhamos de Deus um salário, e, depois de uma oferta, não damos uma esmola a quem não tem o que comer nas portas das nossas igrejas. Fome, na boca dos outros, é apenas preguiça. Dizemos que ganhamos de Deus um carro importado, mas, depois de um passeio, não levamos um compatriota doente ao hospital. Dor, no corpo dos outros, é apenas incômodo. Dizemos que ganhamos de Deus uma casa própria, contudo, depois de uma festa, não damos amparo a um desabrigado por uma chuva forte. Enchente, na residência dos outros, é apenas imprudência. E assim, julgando com a mediada da desculpa, acreditamos livrar-nos do peso da consciência.

Talvez, mais que em qualquer outra era, hoje acreditamos em Deus mais por interesse financeiro que por fé, à imagem e semelhança de filhos mimados que procuram comportar-se bem para receberem presentes como prêmios, não como filhos instruídos pela vontade dO Pai, criaturas feitas filhas de Deus por adoção ao crermos no nome de Jesus Cristo e recebê-lO, sendo Ele o caminho, e a verdade, e a vida para termos a graça da eternidade celestial. E o amor ao nosso Deus, que enviou a nós a nossa Salvação? E o amor ao próximo como a nós mesmos? Jesus não foi imperativo, foi comparativo para que a medida dos nossos umbigos, maiores que os nossos corações, fosse posta diante da desmedida dos nossos egoísmos. No tocante ao resumo do Decálogo, sejamos pelo menos sinceros e não ocultemos que o nosso amor ao dinheiro, a raiz de todos os males, é maior que qualquer outro. Todos queremos a eternidade, mas desde que tenhamos tudo o que desejamos, ou seja, tudo de que O Filho abriu as mãos para elas serem cravadas.

É fácil ser evangélico, porém é difícil ser cristão. Condenamos os judeus, no entanto nos comportamos como os fariseus. No final do mês, estamos muito ocupados porque precisamos pagar as prestações da nossa teolorgia da prosperidade. Contamos que temos Jesus Cristo no coração, e escondemos Satanás no bolso, nas contas bancárias e em outros investimentos econômicos. De dois senhores, a quem servimos? A quem confessamos os nossos pecados e pedimos perdão? E a sabedoria dO Espírito Santo, pedimos aos autores dos livros religiosos de autoajuda, que não tem qualquer ato de solidariedade ao próximo que não seja o da fila de autógrafos? De quem são os conselhos com os quais nos deitamos?

Tão ruim ou pior que abusar da noiva de Cristo é a conivência com o abuso por um lobo na pele de um pastor. Entre ele e a ovelha, uma relação mais que promíscua, um adultério espiritual. Claro que a referência não é a mesma aos casos de desespero, ausência da esperança racional, em que a perda do juízo nos leva à primeira promessa de cura, como a noiva traída se deixa levar pela primeira promessa de fidelidade. À malícia dos caninos, a justiça divina, não a terrena, secular, porque esta já está comprometida.

Fizemos do gazofilácio uma urna eletrônica, e a pregação da Palavra virou discurso político. A Bíblia Sagrada, que não lemos, virou uma constituição, e os nossos dízimos e ofertas viraram financiamento de campanhas políticas. Queremos ver a liderança espiritual no poder secular porque o Céu ainda é um lugar distante demais para a nossa ganância. Ele não é o bastante, precisamos da escritura da nossa Terra Prometida aqui para que possamos ter, como supostos embaixadores de Cristo, um lugar forte que sirva de alto refúgio à fraqueza da nossa baixaria, aonde sem demora possamos ir, pois templo é dinheiro.

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Meu Camaro amarelo?

Gastar centenas de milhares de reais num SS, Sertanejo Sport, para que a minha liberdade tenha o direito de ficar presa no engarrafamento da cidade grande e, na estrada, conviver com o malicioso, ciumento e redundante perigo de ter a roda destruída por um buraco?

Vaidade por vaidade, ainda que meus pés sejam grandes, mas minhas mãos sejam pequenas, pelo menos o tamanho do meu nariz assusta. Se você achou a frase anterior vulgar, saiba que comprar um carro para estar com uma mulher que se vende de graça é pagar pela prostituição da falsidade. Se você achou a frase anterior moralista, saiba que os dados marcados num cartão de crédito dentro de um buquê não são mais sedutores que palavras escritas à mão num cartão romântico. Se você achou a frase anterior ingênua, saiba que o melhor lugar para escrever poesia não é num pedaço de papel, e sim no coração de uma mulher verdadeira. E se você, assim como eu, é um verdadeiro pé-de-chinelo, não se preocupe, pois é só se lembrar de que o melhor lugar para estar com uma mulher não é dentro de um carro, e sim ao lado dela, e o melhor momento não é durante uma carona, e sim para sempre.

PS: Se você ficou olhando mais para a anatomia de quem segura o meu chinelo amarelo que para o próprio chinelo, saiba quê, aliás, não queira saber quanto tempo demorei para escrever este texto. E não me pergunte onde fui buscar inspiração. Se você, mulher, acabou de ler a frase anterior e sorriu, saiba que a imperfeição e a contradição das palavras masculinas têm nele, sim, no seu sorriso, o gesto de perdão que todos nós, homens, desejamos conquistar. Agora, se você ficou olhando mais para a paisagem ou tentando imaginar de que tecido é feito o biquíni, será que isto quer dizer que o seu Camaro é cor-de-rosa?