Doxologia

Ao único Deus, Salvador nosso, por Jesus Cristo, nosso Senhor, seja glória e majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, agora, e para todo o sempre. Amém! (Jd 1.25, ARC95)

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Templo é Dinheiro

Dizemos que ganhamos de Deus um salário, e, depois de uma oferta, não damos uma esmola a quem não tem o que comer nas portas das nossas igrejas. Fome, na boca dos outros, é apenas preguiça. Dizemos que ganhamos de Deus um carro importado, mas, depois de um passeio, não levamos um compatriota doente ao hospital. Dor, no corpo dos outros, é apenas incômodo. Dizemos que ganhamos de Deus uma casa própria, contudo, depois de uma festa, não damos amparo a um desabrigado por uma chuva forte. Enchente, na residência dos outros, é apenas imprudência. E assim, julgando com a mediada da desculpa, acreditamos livrar-nos do peso da consciência.

Talvez, mais que em qualquer outra era, hoje acreditamos em Deus mais por interesse financeiro que por fé, à imagem e semelhança de filhos mimados que procuram comportar-se bem para receberem presentes como prêmios, não como filhos instruídos pela vontade dO Pai, criaturas feitas filhas de Deus por adoção ao crermos no nome de Jesus Cristo e recebê-lO, sendo Ele o caminho, e a verdade, e a vida para termos a graça da eternidade celestial. E o amor ao nosso Deus, que enviou a nós a nossa Salvação? E o amor ao próximo como a nós mesmos? Jesus não foi imperativo, foi comparativo para que a medida dos nossos umbigos, maiores que os nossos corações, fosse posta diante da desmedida dos nossos egoísmos. No tocante ao resumo do Decálogo, sejamos pelo menos sinceros e não ocultemos que o nosso amor ao dinheiro, a raiz de todos os males, é maior que qualquer outro. Todos queremos a eternidade, mas desde que tenhamos tudo o que desejamos, ou seja, tudo de que O Filho abriu as mãos para elas serem cravadas.

É fácil ser evangélico, porém é difícil ser cristão. Condenamos os judeus, no entanto nos comportamos como os fariseus. No final do mês, estamos muito ocupados porque precisamos pagar as prestações da nossa teolorgia da prosperidade. Contamos que temos Jesus Cristo no coração, e escondemos Satanás no bolso, nas contas bancárias e em outros investimentos econômicos. De dois senhores, a quem servimos? A quem confessamos os nossos pecados e pedimos perdão? E a sabedoria dO Espírito Santo, pedimos aos autores dos livros religiosos de autoajuda, que não tem qualquer ato de solidariedade ao próximo que não seja o da fila de autógrafos? De quem são os conselhos com os quais nos deitamos?

Tão ruim ou pior que abusar da noiva de Cristo é a conivência com o abuso por um lobo na pele de um pastor. Entre ele e a ovelha, uma relação mais que promíscua, um adultério espiritual. Claro que a referência não é a mesma aos casos de desespero, ausência da esperança racional, em que a perda do juízo nos leva à primeira promessa de cura, como a noiva traída se deixa levar pela primeira promessa de fidelidade. À malícia dos caninos, a justiça divina, não a terrena, secular, porque esta já está comprometida.

Fizemos do gazofilácio uma urna eletrônica, e a pregação da Palavra virou discurso político. A Bíblia Sagrada, que não lemos, virou uma constituição, e os nossos dízimos e ofertas viraram financiamento de campanhas políticas. Queremos ver a liderança espiritual no poder secular porque o Céu ainda é um lugar distante demais para a nossa ganância. Ele não é o bastante, precisamos da escritura da nossa Terra Prometida aqui para que possamos ter, como supostos embaixadores de Cristo, um lugar forte que sirva de alto refúgio à fraqueza da nossa baixaria, aonde sem demora possamos ir, pois templo é dinheiro.

Casal de Deus

À noite, num quarto de casal, um homem de Deus ora a esposa, e uma mulher de Deus, o marido. Ambos se deitam e, em silêncio, de mãos dadas e olhos fechados, não fazem amor porque preferem sentir o daquEle que os uniu. Elevando pensamentos, os dois agradecem a Ele por sonharem acordados a realidade do matrimônio divinamente abençoado. O casal se cobre e descobre que mais quente que uma peça de jogo de cama é o carinho do abraço que adormece a inquietação e desperta a tranquilidade, pois “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”.

Coração e Boca

Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as saídas da vida, pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca, porque onde estiver o vosso tesouro, ali estará também o vosso coração. Visto que com o coração se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação, portanto, ofereçamos sempre, por ele, a Deus sacrifício de louvor, isto é, o fruto dos lábios que confessam o seu nome, mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque o Pai procura a tais que assim o adorem.

Paz e fraternos abraços, ???? ?????.

Teologia Infantil

Sempre que a minha mãe, o meu pai, os meus tios, primos, amiguinhos e coleguinhas diziam que só Jesus Cristo me aturava, sentia um alívio por saber que tal frase dava conta de que o diabo supostamente não gostaria de ter a mim no lar dele e, provavelmente, seria convidado a me retirar do inferno por mau comportamento caso para lá fosse mandado, o que era algo que com frequência acontecia verbalmente. E assim, os meus responsáveis e as demais pessoas que conviviam comigo, com a previsibilidade do tradicional maniqueísmo, apresentavam-me o céu pelo antagonismo a ele com a sagacidade de quem apresenta um rodízio de carnes a um canibal.

Antes de ser colonizado animicamente, catequizado, a mais forte dentre as ideias inatas em mim relativas à sobrenaturalidade era a da reencarnação. Ainda sem o conhecimento prévio das religiões tachadas de sadomasoquismo espiritual repetitivo e explicações doutrinárias delas, via-me questionando quem teriam sido alguns dos meus vizinhos em outras vidas, se teriam sido animais ou estavam vivendo a vida atual como preparação para experiências zoológicas futuras pelo comportamento deles, como o cavalo de uma das casas próximas à minha, que era casado com uma vaca, e a filha deles, que vivia nadando em rio que jacaré nada de costas. Tendo em vista um estranho prazer que tomava conta de mim sempre que fazia experiências para comprovar as sete vidas do meu gato, desconfiava de que não havia sido boa coisa nas minhas vidas anteriores e quê, se não tomasse um jeito, apesar da frase cristã constantemente citada pelos que viviam ao meu redor, o meu destino pós-túmulo não seria dos mais agradáveis pelo meu comportamento e se nas profundezas do mal houvesse um ex-membro de alguma sociedade protetora dos animais.

Antes da catequese, ainda mantinha algumas das minhas primeiras impressões celestiais. Tinha a certeza de que Deus estava preferencialmente do lado dos meninos porque, sendo dia ou noite, o céu era sempre azul. Sendo o nosso firmamento azul, mais azul seria o divino. Um orgulho irradiante se apoderava de mim quando pensava naquelas irritantes criaturas do sexo-frágil-feminino-se-me-chamar-de-boba-conto-para-a-professora. Poderia chover fogo e enxofre, mas o céu jamais seria cor-de-rosa-pleonasmo-ou-seja-menina-chata. Outro fato que confortava o meu machismo era o de existirem só anjos. Se anjos fossem anjas, Sodoma e Gomorra não teriam sido destruídas pelas encarregadas da tarefa por causa do atraso na hora de elas escolherem as roupas para a ocasião. E se Gabriel fosse Gabriela, a criatura celestial feminina teria ficado conversando com Maria até o nascimento dO Messias e, por tanto encher a paciência dEle durante a gestação, seria rebaixada a cupido, uma espécie de anão angelical disfarçado de criança para lá de mal-educada. Por que um homem e uma mulher precisariam ser alvejados para se apaixonarem um pelo outro? Não compreendia a tolerância divina, achava injusto um ser espiritual poder usar arco e flecha, e nós, inocentes crianças humanas, não podermos brincar com armas de fogo. Quando via uma nuvem passando devagar e sem se desfazer, imaginava cupidos de tocaia dentro dela e torcia para que um avião a atravessasse. De posse da auréola de um deles, torturaria pelos pescoços todos os sobreviventes que não fossem bons de mira, responsáveis pelas paixões não correspondidas incluindo a minha.

Para o desespero da minha soberba masculina, quando estava aprendendo a ler e escrever, imaginei que o caminho para o céu passava por uma menina. Não conseguia traduzir pelas minhas mãos o que sentia, e os meus laços com Deus ficavam mais apertados porque, à noite, antes de dormir, orava em silêncio a Ele pedindo que me perdoasse para, não sendo possível algum dia amar o próximo, que eu pudesse substituir tal erro pela correção de amar para sempre a menina que se sentava ao meu lado na sala de aula, e a forma carinhosa encontrada por Deus para me ensinar que o inferno realmente existia sem que pudesse estar nas garras do demônio foi enviar um cupido míope que só acertasse a mim. Conformado com a ausência de correspondência, deixava de lado o reencarnacionismo para não sofrer a falta dela durante todas as minhas vidas e passava a me dedicar aos estudos religiosos, querendo encontrar no céu a cura para a dor que sentia na Terra.

Dias após a celebração da minha Primeira Comunhão, alguém dizia que eu tinha sido o primeiro aluno da catequese. Enquanto espalhavam a notícia, colegas pensavam que as freiras do convento iriam preparar-me para o sacerdócio. Havia até quem comentava que era santo e o meu primeiro milagre teria sido fazer desaparecer a mochila de um colega de classe e fazê-la reaparecida num galho alto, exatamente na direção de um passarinho morto no chão. Por conta do objeto pendurado ser cheio de livros, pensavam se tratar de alguma advertência acerca de uma árvore do conhecimento e do fruto proibido dela. Quando me perguntavam por que o animal aviário não havia sido poupado, era enfático ao dizer quê, se a desobediência era o oposto da obediência, ele não estava morto, e sim vivendo ao contrário, eufemismo para a triste coincidência da finada criatura voadora ser aquela cujo canto era o predileto da minha paixão secreta malsucedida.