Diálogo Monolítico Entre Eu Mesmo e Mim Mesmo

Texto escrito com tinta invisível para preservação da intimidade do autor. Qualquer leitura é mera ilusão de ótica.

– Por que o subtítulo acima?

– Para disfarçamos a nossa evasão de privacidade.

– Por que esta conversa foi marcada em textos privados?

– Ninguém resiste à própria privacidade e à intimidade alheia.

– E quem nos lerá se estamos escondidos? Será que estamos camuflados adequadamente? Eu de itálico incógnito, e você de negrito confidencial?

– Preocupamo-nos tanto com a vaidade das palavras quê, até em silêncio, fazemos questão de estarmos bem apresentados. Não se preocupe.

– Mesmo no silêncio somos vaidosos?

– Roupas não nos bastam. Tatuamos até a nossa nudez.

– Por que somos tão contraditórios na privacidade e no exibicionismo? Será medo do esquecimento?

– Não. É medo de não sermos lembrados.

– Sobre o que poderíamos conversar?

– Não tenho a menor ideia.

– Por que, então, estamos aqui?

– Porque estamos refugiando-nos da ditadura espontânea recriada por Mark Zuckerberg. Do jeito que as coisas estão, é mais fácil encontrar uma virgem numa casa de tolerância que um pacifista no Facebook. E desde quando aquela rede pode ser chamada de social? Desde quando algo que significa prender pode significar libertar?

– Você está sendo pessimista. As pessoas só querem compartilhar experiências, manifestar ideias, serem espontâneas e sinceras.

– Lá?! Pelo menos, aqui, temos o recurso da moderação.

– O que os nossos leitores vão pensar desta afirmação?

– Nada. Esqueceu-se de que eles não podem ver esta conversa?

– Mas e se pudessem?

– Não ficaria preocupado se eles pudessem ler-nos. Ficaria preocupado com o que eles comentariam sobre nós.

– Temos o recurso da moderação aqui!

– E na vida real?

– Não havia pensado nela… Até quando ela irá durar? É tão difícil lidar com uma vida sem direito a backspace, ctrl+z, delete…

– Uma vida virtual não significa uma vida virtuosa. Seja onde for, todos estamos fadados ao erro.

– Mas a vida virtual é tão prática…

– E a vida real é tão teórica…

– Tudo ainda está confuso. Não sabemos se a tecnologia democratizou o conhecimento ou a ignorância.

– Ainda temos o bom e velho perdão.

– Não sei com o que é mais difícil lidar, se com o perdão ou, antes dele, o arrependimento. A ciência já inventou a cura para tantas doenças, e nós ainda não aprendemos a viver com alguns sentimentos.

– Quem não tem perdão caça com hipocrisia.

– E quem não tem arrependimento caça com demagogia.

– Se fossemos perfeitos, não seríamos humanos.

– Você ainda acredita que a perfeição da vida só pode dar-se depois da morte?

– No Céu ou no inferno?

– E para onde iríamos?

– De acordo com as nossas ex-sogras…

– Não é preciso dizer e não é preciso lembrar que elas existem.

– O que as nossas ex-esposas diriam se pudessem ler-nos?

– O problema não seria ler o que estamos dizendo, e sim o que sempre tentamos fazer, e não conseguimos: fazê-las entender-nos.

– O verbo conseguir está no presente ou no pretérito?

– De que adiantaria não ter conseguido ontem, não conseguir hoje ou amanhã? Só elas conseguem o que querem, principalmente quando desejam levar-nos à loucura. Por elas, vamos até a uma igreja. Só elas nos fazem querer pecar num lugar sagrado. E são tão ardilosas que nos levam a pecar num local próprio para o arrependimento e o perdão. Depois, dizem que não são práticas.

– Não vamos nos enganar: embora saibamos que as nossas vidas são um dom de Deus, é por elas que vivemos.

– Ou morremos.

– Ou o Céu, ou o inferno. Não existe meio destino ao lado de uma mulher.

– Mais complexa que as mulheres, só a nossa pátria, um país tropical que sofre crise hídrica.

– Fazer o quê? Num país que elegeu um palhaço como deputado, tudo é possível.

– Num lugar que mais parece um circo, pelo menos foi eleito um especialista no assunto.

– Verdade. Já que falamos de mulheres, religião e política sem nos matarmos, por que não encerramos a conversa aqui?

– Não falamos de futebol!

– É que há muito deixamos de assistir a filmes de terror.

– Paz e uma arquibancada de abraços.

– Espere!… Conversamos secretamente, mas se alguém comentar esta postagem?

– É só respondermos com palavras em branco.

– Paz e alvejados abraços.

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