Teologia Infantil ou Lembranças Sobrenaturais do Tempo de Criança

Sempre que minha mãe, meu pai, meus tios, primos, amigos e colegas diziam que só Jesus Cristo me aturava, sentia um alívio por saber que tal frase dava conta de que o diabo supostamente não gostaria de ter a mim no lar dele e, provavelmente, seria convidado a me retirar do inferno por mau comportamento caso para lá fosse mandado, o que era algo que com frequência acontecia verbalmente. E assim, os meus responsáveis e as demais pessoas que conviviam comigo, com a previsibilidade do tradicional maniqueísmo, apresentavam-me o céu pelo antagonismo a ele com a sagacidade de quem apresenta um rodízio de carnes a um canibal.

Antes de ser colonizado animicamente, catequizado, a mais forte dentre as ideias inatas em mim relativas à sobrenaturalidade era a da reencarnação. Ainda sem o conhecimento prévio das religiões tachadas de sadomasoquismo espiritual repetitivo e explicações doutrinárias delas, via-me questionando quem teriam sido alguns dos meus vizinhos em outras vidas, se teriam sido animais ou estavam vivendo a vida atual como preparação para experiências zoológicas futuras pelo comportamento deles, como o cavalo de uma das casas próximas à minha, que era casado com uma vaca, e a filha deles, que vivia nadando em rio que jacaré nada de costas. Tendo em vista um estranho prazer que tomava conta de mim sempre que fazia experiências para comprovar as sete vidas do meu gato, desconfiava de que não havia sido boa coisa nas minhas vidas anteriores e quê, se não tomasse um jeito, apesar da frase cristã constantemente citada pelos que viviam ao meu redor, o meu destino pós-túmulo não seria dos mais agradáveis pelo meu comportamento e se nas profundezas do mal houvesse um ex-membro de alguma sociedade protetora dos animais.

Antes da catequese, ainda mantinha algumas das minhas primeiras impressões celestiais. Tinha a certeza de que Deus estava preferencialmente do lado dos meninos porque, sendo dia ou noite, o céu era sempre azul. Sendo o nosso firmamento azul, mais azul seria o divino. Um orgulho irradiante se apoderava de mim quando pensava naquelas irritantes criaturas do sexo-frágil-feminino-se-me-chamar-de-boba-conto-para-a-professora. Poderia chover fogo e enxofre, mas o céu jamais seria cor-de-rosa-pleonasmo-ou-seja-menina-chata. Outro fato que confortava o meu machismo era o de existirem só anjos. Se anjos fossem anjas, Sodoma e Gomorra não teriam sido destruídas pelas encarregadas da tarefa por causa do atraso na hora de elas escolherem as roupas para a ocasião. E se Gabriel fosse Gabriela, a criatura celestial feminina teria ficado conversando com Maria até o nascimento dO Messias e, de tanto encher a paciência dEle durante a gestação, seria rebaixada a cupido, uma espécie de anão angelical disfarçado de criança para lá de mal-educada. Por que um homem e uma mulher precisariam ser alvejados para se apaixonarem um pelo outro? Não compreendia a tolerância divina, achava injusto um ser espiritual poder usar arco e flecha, e nós, inocentes crianças humanas, não podermos brincar com armas de fogo. Quando via uma nuvem passando devagar e sem se desfazer, imaginava cupidos de tocaia dentro dela e torcia para que um avião a atravessasse. De posse da auréola de um deles, torturaria pelos pescoços todos os sobreviventes que não fossem bons de mira, responsáveis pelas paixões não correspondidas incluindo a minha.

Para o desespero da minha soberba masculina, quando estava aprendendo a ler e escrever, imaginei que o caminho para o céu passava por uma menina. Não conseguia traduzir pelas minhas mãos o que sentia, e os meus laços com Deus ficavam mais apertados porque, à noite, antes de dormir, orava em silêncio a Ele pedindo que me perdoasse para, não sendo possível algum dia amar o próximo, que eu pudesse substituir tal erro pela correção de amar para sempre a menina que se sentava ao meu lado na sala de aula, e a forma carinhosa encontrada por Deus para me ensinar que o inferno realmente existia, sem que pudesse estar nas garras do demônio, foi enviar um cupido míope que só acertasse a mim. Conformado com a ausência de correspondência, deixava de lado o reencarnacionismo para não sofrer a falta dela durante todas as minhas vidas futuras e passava a me dedicar aos estudos religiosos, querendo encontrar no céu a cura para a dor que sentia na Terra.

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Amar é…

Amar é ser prestativo sem qualquer segunda intenção.


Amar é entender quê, para uma criatura do gênero feminino,
mais importante que ouvir é ser ouvida.
Não importa o que um homem tem a dizer para ela
porque jamais será mais importante que o que ela tem a dizer para ele.


Amar é acabar com a guerra entre a toalha molhada jogada em cima da cama
e a calcinha lavada pendurada na torneira do chuveiro.


Amar é fazer de um sussurro uma declaração.


Amar é perder o sono buscando uma resposta
para uma discussão de relacionamento.


06 - Amar é... - 07 (PSE)

Amar é sentir saudade das noites de discussão de relacionamento.


Amar é plantar a alegria na dor.


Amar é não ter medo de se jogar.


Amar é ter no rosto, ao mesmo tempo, riso e choro.


Amar é ela fingir que não manda e ele fingir que não obedece.


Amar é caçar um motivo para brigar só para, depois, pedir perdão e fazer as pazes.


Amar é fazer do sofá um porto.


Amar é querer desenhar no céu o que está tatuado nas almas.


Amar é descobrir que uma das melhores partes de um relacionamento
não é conhecer o corpo de uma mulher durante o sexo,
e sim a alma de uma mulher durante o amor.


Amar é para sempre.

Muitas Coisas em Poucas Palavras

Olhos
para o céu cheio de estrelas
do mar.

Rosa-dos-ventos
para jardins suspensos não caírem
em si.

Bússola
para ancorar nuvens
de algodão.

Lei
para assegurar guarda
chuva.

Latim
para a cólera dos caninos
e de todos os outros dentes.

Demônio
para corromper o fiel
da balança.

Agulha
para desfazer nó
em pingo d’água.

Peneira
para tomar sopa
de letrinhas.

Rima
para condenar versos
livres.

Batom
para escrever poesia no céu
da boca.

Co-oração
para morrer de saudade
do seu sorriso.

Absurdo
para enxergar
o óbvio.

Many things in few words, ??? ?????????.

Literatura e Filosofia

??? ?????????, era o seu verso e a minha frase se misturando, se encontrando e se perdendo, poesia romântica ou romance poético não sabendo, não sabendo, mas sentindo muito, sentindo muito prazer, prazer por transformar a leitura em fazer sem qualquer pudor por não rimar prazer com amor. E passávamos da literatura à filosofia num piscar de sussurros quando a verdade do meu imoralismo questionava a falsidade da sua candura, e antes que os seus olhos derramassem um gemido, eu retocava o seu sorriso. Brigávamos só para fazer as pazes, só para que a cama fosse uma página onde o perdão abraçava o arrependimento. Como era bom quando líamos e escrevíamos um no outro um ato de amor ao conhecimento…